Venerável Jean-Léon Le Prevost

Jean-Léon Le PrevostJean-Léon Le Prevost nasceu em Caudebec-en-Caux na Normandie no dia 10 de agosto de 1803.
Com a ajuda de Clément Myionnet e Maurice Maignen, fundo o Instituto dos Irmãos de São Vicente de Paulo no dia 3 de março de 1845.
Morreu em Chaville perto de Paris no dia 30 de outubro de 1874.
Foi declarado Venerável pelo Papa João Paulo II no dia 21 de dezembro de 1998.

“É a caridade que suscita tudo ao redor de nós; é ela que desperta as almas, as impulsiona e as unifica. É ela também que nos leva e nos envolve na sua ação. A caridade não fraqueja e não fica no meio da jornada. Uma vez acesa, é preciso que se espalhe, brilhe e leve longe seu calor. Tudo também lhe serve de alimento. Não tenhamos medo, portanto, queridos amigos, não olhemos demais à nossa indignidade, que nos freia freqüentemente e nos torna tímidos. A caridade, como a chama, consome e purifica; por ela seremos penetrados, vivificados, por ela seremos transfigurados. Oh! que esse pensamento nos anime e nos console. É a caridade que nos impulsiona e nos pressiona, somos movidos por ela; por ela tão ardente, tão poderosa; por ela, que é força, vontade, amor, amor infinito, amor de Deus!” Carta 177 – 26 de agosto de 1847

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tutte le lettere di jl le prevost

O menino da Normandia

220px-Eglise-de-Caudebec-en-Caux-DSC_0498No fim da tarde, os sinos da igreja repicam no céu de uma cidadezinha da Normandia. Pe. Pedro Miette acaba de celebrar mais um batizado e, tomando a sua caneta, passa a escrever num caderninho: “Hoje, quarta-feira, 20 do mês de Frutidor, Ano Onze da Revolução, sete de setembro de 1803, foi batizado por mim, vigário de Caudebec, abaixo assinado, um filho de quinze dias de idade, nascido do legítimo casamento de João Luís Cláudio Le Prevost e Francisca Catarina Pitel. Foi chamado Jean-Léon Le Prevost. Os padrinhos foram Nicola José Hery e Maria Joana Le Prevost, viúva Quesnel”. E solenemente assinou: “Miette, vigário de Caudebec”.

João, apóstolo e evangelista, será o padroeiro do recém-nascido. A igreja de Caudebec oferece sempre à veneração dos fiéis uma linda estátua do discípulo bem-amado. Ao outro João, o precursor, há duas capelinhas dedicadas e um vitral. Le Prevost gostará dos seus dois padroeiros.

Depois do batismo, os pais voltaram para casa com uma grande alegria no coração, recordando tantas lembranças do passado. Desde muito tempo, os Le Prevosts moravam naquela cidade antiga e simpática, situada à beira do rio Sena. Os manuscritos amarelados do século XVIII contêm o nome de João Le Prevost, advogado e tesoureiro da igreja, que foi o avô do menino. Um dos seus três filhos é precisamente João Luís Cláudio que possui uma mansão e uma tinturaria importante, um pouco fora do centro, na estrada de Yvetot, hoje, rua da República, n. 49. Ali tinha nascido Jean-Léon, no dia 10 de agosto. A felicidade parece perfeita na casa onde cresce também uma menina de 15 meses. A renda familiar é boa; uns cinqüenta operários trabalham na oficina do pai.

De repente, uma desgraça vem golpear a família Le Prevost. Francisca Catarina, com apenas 26 anos, morre em 19 de abril de 1804, deixando dois orfãozinhos. Após a encomendação, o corpo dela é enterrado no cemitério São Mauro. Felizmente o pequeno Jean-Léon acha, sem muita demora, uma segunda mãe.

Uma outra mãe

O Sr. João Luís dUma outra mãeesposa Rosália Duchatard, uma mulher “boa como os anjos, santa e piedosa”. Com muito carinho, D. Rosália cria os seus dois filhos adotivos, Maria Francisca e o caçula. Daquela segunda mãe, Jean-Léon dirá mais tarde: “Ela vive somente por Deus, pelos pobres e pelos seus filhos”. Nela ele descobrirá que “um coração de mãe tem abismos que só Deus pode sondar”.

Com o passar dos anos, o menino se desenvolve. Ë vivo, mas fraco de saúde, com um defeito na perna direita, conseqüência de um acidente. A “mãe” o leva à igreja Notre-Dame, uma jóia artística com sua torre de 53 metros de altura, suas esculturas, seus vitrais, suas estátuas de pedra. O rapazinho vai de vez em quando em romaria à capelinha de Barre-y-va, que atrai um sem-número de peregrinos, sobretudo na festa da Anunciação de Nossa Senhora, em 25 de março. Jean-Léon percorre as pitorescas ruas de Caudebec, descobre as antigas casas de estilo normando, admira os dois riozinhos que serpeiam por aí, olha as verdes colinas dos arredores e, nos campos, as árvores cheias de ameixas e maçãs. Em uma palavra, gosta do seu “lindo país de Normandia”.

Em Paris

JL L Prevost1843

Com 22 anos, Le Prevost se estabelece em Paris, a grande cidade, metrópole do comércio, das belas artes, do teatro, dos espetáculos, do progresso. Ele trabalha agora na secretaria de D. Frayssinous, um personagem na França da época, pois, é bispo de Hermópolis, primeiro esmoleiro do Rei, Grão-Mestre da Universidade e ministro dos cultos. Todos os dias o funcionário Le Prevost entra no escritório às 10 horas e, até 16, redige cartas e documentos. Nos momentos livres, passeia pelas avenidas da capital, pelos Campos Elíseos ou pelo Arco do Triunfo, visita Notre-Dame, a Santa Capela, o palácio do Louvre…

Artista nato, ele se entrosa no mundo da literatura e freqüenta o poeta mais célebre do tempo, Victor Hugo.’ Ele mesmo descreve uma de suas visitas ao autor de Os miseráveis e Hernani: “Ontem sozinho com os canapés, as cadeiras, os quadros, os desenhos, os esboços, no escritório do Sr. Hugo, conversei duas horas com ele, brinquei com as crianças, bati um papo com a senhora dele e, quando fui embora, ele me apertou a mão; ela se levantou e me fez uma saudação encantadora…” As vezes, Hugo lhe brinda um dos seus últimos livros de poesia, e Le Prevost vai bater palmas na apresentação das obras dramáticas do mestre da Escola Romântica

Victor Hugo (1802-1885) poeta, romancista, líder da escola romântica na França, escreveu várias obras,como Notre-Dame de Paris, La lenda de los séculos etc.

Jean-Léon gosta de visitar os museus, de assistir aos grandiosos espetáculos artísticos ou musicais na Opera ou no Teatro da Porta São Martinho. Também conhece Sainte-Beuve, o mais popular crítico literário daquele tempo, indo, às vezes, ao apartamento dele na Passagem do Comércio. Escreve alguns artigos para o jornal de Pavie, qual uma análise do drama de Shakespeare apresentado numa tradução francesa.

Profundas amizades

Na capital da França, Le Prevost tem a felicidade de fazer amizade com Victor Pavie, jovem estudante e poeta cristão, natural de Angers; uma amizade que durará até o fim da sua vida. No círculo de Pavie, ele acha outros universitários vindos da mesma cidade: os mais chegados são: Carlos Gavard, Adriano Maillard, Leo Cosnier, Eduardo Guépin. Uma turma formidável que gosta de literatura, de música, de história, de pintura. Ao mesmo tempo, uma turma de amigos que pertencem à jovem Escola Católica. Victor Pavie, sobretudo, ajudará Le Prevost no caminho da fé.

Conversão

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No entanto, a política, o romantismo, as artes, o teatro não satisfazem o funcionário que está à procura de um ideal mais alto. Vários caminhos o levam a Deus. Já Le Prevost escrevia ao caro amigo de Angers: “Sim, diante de Deus, a amizade é realmente santa. Todo sentimento profundo, generoso, devotado, é um impulso para Deus…” A seguir, a morte de um bom velhinho, amigo seu, impressiona Jean-Léon que exclama: “O vencedor é Deus mesmo e quão fraco é o homem!” No mês de agosto de 1832, ele escreve: “Com a ajuda de Deus, enfim saio das trevas da incerteza e da dúvida, torno a ser cristão”. Alguns dias depois, ele acha a paz absoluta no sacramento da reconciliação e vive doravante “no ar puro que lhe convém”. Descobriu o sentido para a própria vida.

Naquele tempo, depois de uma grave doença, declara: “Deus foi para mim tão bondoso, tão carinhoso. Sem ele, sem meu título de cristão, nunca teria suportado aquela terrível angústia. Deus me fez sentir que me quer assim e que eu posso agradá-lo na fraqueza e na submissão”.

Um casamento incomum

 

Fato imprevisto. Um belo dia — 19 de junho de 1834 —, na igreja das Missões Estrangeiras, Jean-Léon Le Prevost se casa com a senhorita Aura De Lafond, 17 anos mais velha que ele. Um casamento que assusta os amigos e que exige uma explicação. Le Prevost tinha pensado na vocação sacerdotal. Todavia a sua saúde parecia lhe fechar esse caminho. Depois de uma longa reflexão, por gratidão para com a senhorita De Lafond, que o tinha ajudado muito na hora de sua gravíssima doença, aceita o matrimônio. Um generoso sentimento de caridade o motiva naquele momento. Le Prevost quer somente salvar do desastre psicológico e reconduzir à fé uma pessoa querida, mas melancólica, afastada da Igreja, à beira do desespero. Não seria um ato heróico de caridade? Na véspera do casamento, ele escreve a seu amigo de confiança, Emanuel Bailly: “Tenho tanto procurado a vontade de Deus que devo crer enfim que assim a achei e acredito que ele não me abandonará”.

Não foram fáceis os anos de vida conjugal, sobretudo no início. Ele terá de praticar paciência, misericórdia, humildade. Antes de mais nada, reza e pede orações pela conversão de sua mulher, sinceramente estimada, apesar de todas as dificuldades encontradas. Com o tempo, a senhora Le Prevost volta a uma vida normal. Para ele serão anos de profunda purificação espiritual.

Le Prevost encontra Ozanam

04I3CMNo salão de Montalembert, Le Prevost tinha encontrado Frédéric Ozanam. Nascido em 1813, Ozanam deixara sua boa cidade de Lião para estudar Direito em Paris. Mais tarde ele se casará com Amélia Soulacroix e terá uma filha, Mariazinha. EM 1853 morrerá, deixando uma obra literária importante e sobretudo o testemunho de uma vida cristã admirável, como esposo, pai e professor universitário.

Na noite de 23 de abril de 1833, o sábio Bailly, o entusiasta Ozanam e cinco outros estudantes reúnem no escritório do diário “La Tribune catholique”, na rua du Petit-Bourbon, n. 18, ao lado esquerdo da igreja de São Sulpício. Procurando testemunhar a fé cristã nos ambientes das escolas, aqueles jovens querem visitar os pobres e necessitados, levar-lhes uma ajuda financeira e espiritual. Assim nasce a primeira Conferência de Caridade. Nenhum deles pensa, naquele instante, que o núcleo iria se dividir em tantas células e futuramente abranger mais de cem países. A Sociedade de São Vicente de Paulo teve humildes inícios.

Esses novos vicentinos costumam almoçar num simples restaurante onde se encontra também Le Prevost. Certa vez, decidem convidá-lo a colaborar consigo. Um convite descido do céu, porque na Conferência, Le Prevost descobre o Santo da Caridade e, ao mesmo tempo, a sua vocação    definitiva e verdadeira. Logo passa a distribuir mantimentos aos indigentes nos casebres, a visitar os trombadinhas no xadrez, a socorrer os velhos esquecidos nos porões. Doravante será um vicentino de coração!

Em Paris, todos conhecem irmã Rosalie Rendu e sua larga touca branca. No Bairro Mouffetard — um dos mais tristes da capital —, chamado o bairro das revoluções, “a Rainha da miséria” distribui alimento aos desamparados, dirige uma creche para os menores abandonados, aconselha as mães desprotegidas, sustenta os anciãos, consola os corações aflitos. Ë uma mulher que não conhece o cansaço e cujo escritório é aberto a todos. No dia de suas exéquias, em 1856, os negócios fecharão no bairro Mouffetard, as casas se esvaziarão, o povo, enlutado, acompanhará aquela que tem por mãe. Uma verdadeira filha de Monsieur Vincent! Por enquanto irmã Rosalie educa os membros inexperientes da nova conferência, que começam a percorrer os cortiços, aliviar os sofrimentos e distribuir fichas de pão e da carne. Le Prevost — como Ozanam — foi aluno daquela “ministra da caridade”. Aprendeu tão bem, que um dia receberá o título de “manso e evangélico doutor em caridade”.

A seguir, Le Prevost abre uma casa para os órfãos-aprendizes explorados nas oficinas. A Obra dos Órfãos acolhe cerca de vinte rapazes. Ele mesmo, Ozanam e outros colegas ensinam a esses meninos a escritura, a matemática, o catecismo, a história sagrada. Além disso, os vicentinos preparam para seus pupilos um bom contrato de trabalho, visitam-nos nas oficinas. Aos domingos, os reúnem, oferecendo-lhes diversão, um almoço gostoso e um pouco de formação religiosa. Ali origina-se o patronato, assim chamado porque os jovens são patrocinados, isto é, protegidos e defendidos. Foi dito que Le Prevost amava esses aprendizes “com um coração de pai.

Le Prevost encontra Maurice Maignen

Maurice Maignen à 21 ans d'après un dessin fait par lui-même

Paris aumentava a olhos vistos. O povo chegava da roça, procurando serviço na metrópole, morando nos subúrbios. No espaço de meio século, a população da periferia passava de 85.000 a 550.000 habitantes. Os salários eram baixos; as doenças e epidemias flagelavam os mais indigentes: meninos e meninas de 8 a 12 anos trabalhavam nas fábricas, até 12 horas por dia. Os homens ganhavam uma diária de dois francos; as mulheres, de um; os menores, de cinqüenta centavos; apenas o suficiente para comer. Quando surgia o desemprego, a família vivia na pior miséria, sem proteção, sem amparo.

 

Nas suas andanças aos casebres e cortiços, Le Prevost percebe a situação social e religiosa dessa gente. Ê um rebanho sem pastor, Paris já é um país de missão. Quem teria piedade daquela multidão?

Então, todos os dias, Le Prevost vai rezar demoradamente diante do relicário do santo da caridade, S. Vicente de Paulo, colocado no altar-mor da capela, na rua de Sèvres e medita as palavras dele: “A caridade é criativa até o infinito”. Naquele lugar, ele recebe a inspiração de fundar uma nova congregação. Logo idealiza uma “sociedade” de religiosos dedicados às obras caritativas e à evangelização dos pobres e operários. Esses religiosos sem traje distintivo, bem próximos da vida do povo. seriam os servidores e os missionários dos pobres. “Parece”, pensa consigo, “que falta à glória do cristianismo ter espiritualizado e enobrecido a indústria moderna como tem vivificado e enobrecido o trabalho em todos os tempos”.

Le Prevost revela o seu projeto a um amigo íntimo, Maurício Maignen. Na infância, Maignen tinha experimentado na carne a pobreza e os sofrimentos do jovem operário parisiense. Um belo dia, Maignen tinha encontrado Le Prevost, que o iniciou aos poucos na prática da caridade, reconduzindo-o à fé cristã. Num passeio pelos bosques da vizinhança, Le Prevost confiava ao neoconvertido: Precisaria que Deus fizesse surgir na sua Igreja, para a salvação dos pobres e operários, uma sociedade de religiosos totalmente devotados às obras caritativas. Vestidos à paisana, eles seriam os monges do século XIX”. Encantado, Maurício topou a idéia.

 

Clément Myionnet um companheiro que vem de longe

Ao mesmo tempo, a 300km de Paris, na ci­dade de Angers, vive um comerciante de 30 anos, com uma alma de monge e um zelo de missionário. Clemente Myionnet, com um amigo, já tinha fundado em Fr. Myionnet en 1874 (2)Angers a primeira Conferência vicentina, que se reunia na residência de Victor Pavie. Clemente, por sua vez, aprende a conhecer os pobres, a doar seu tempo e seu dinheiro aos indigentes: abre um pensionato para os aprendizes necessitados.

Myionnet também sonha com uma congregação de religiosos dedicados “às necessidades do tempo”. Já chamava os Irmãos da Caridade, uma réplica masculina das Irmãs da Caridade.

A essa altura, Myionnet vai ter com o seu bispo, D. Angebault, e lhe declara: “Desejo ver sair da Sociedade de São Vicente de Paulo uma congregação que seja entre os homens o que são as Irmãs de São Vicente de Paulo entre as mulheres”.

Todavia, não descobrindo ninguém em Angers para o seu projeto, ele acrescenta: “Devo achar na grande cidade de Paris alguém que tenha o mesmo pensamento. Disso tenho a íntima certeza”.

Provido da bênção de seu bispo, Clemente viaja para a capital, à procura de um companheiro, a fim de dar inicio à nova sociedade religiosa.

Passados, em Paris, quinze dias na oração e na expectativa, ele encontra Le Prevost, bem cedo, na manhã do dia 11 de setembro de 1844, precisamente na capela de São Vicente. Ambos assistem à santa missa, travam uma conversa aberta, percebem logo que estão querendo exatamente o mesmo tipo de congregação.

Então Myionnet regressa à sua cidade e anuncia a seu bispo ter achado um verdadeiro fundador. Não sem pesar, D. Angebault deixa partir o seu filho espiritual para Paris.

A fundação dos Irmãos de São Vicente de Paulo

3 mars 2015 Animateurs_Page_1_Image_0002

Sábado, 1.° de março de 1845, vários rapazes entram pela primeira vez numa casa situada na rua du Regard. O patronato dos aprendizes acaba de ser inaugurado. O diretor, Clemente Myionnet, está presente e passa o dia todo com eles. Esses moços lhe parecem terrivelmente agitados. Myionnet precisa de uma fé e de uma obediência sem limites para realizar os planos do Senhor.

Segunda-feira, 3 de março, Jean-Léon Le Prevost, Clemente Myionnet e Maurício Maignen estão ajoelhados aos pés do relicário de S. Vicente. Dessa vez, D. Angebault, vindo de sua sede episcopal, celebra para eles a Eucaristia. A nova congregação nasce sob o olhar daquele que o fundador chama “apóstolo e doutor da caridade, exemplar de sua vida e padroeiro de suas obras”.

Voltado para o patronato da rua du Regard, n. 16, o bispo invoca o Divino Espírito Santo, abençoa a nova casa e proclama: “A sementinha está plantada, agora crescerá”. Contudo, naquela noite, Myionnet fica sozinho entre as paredes do patronato, pois, Le Prevost ainda se acha comprometido nos laços do casamento, e Maignen nada decidiu.

Firme como uma pedra, o corajoso irmão Myionnet aguarda um ano inteiro os seus companheiros de apostolado. O êxito da fundação depende da fidelidade do único irmão de São Vicente de Paulo.

Doravante, os fatos se sucedem e se entrelaçam. O fundador pede e obtém, em setembro, o consentimento de sua mulher para seguir a nova vocação. No futuro, de comum acordo, ambos viverão separados. Ela, alguns anos mais tarde, morrerá convertida à fé e com sentimentos de piedade. Esta era a graça que o seu marido pedira “noite e dia” ao Senhor.

No fim de 1845, falece D. Rosália, a segunda mãe de Le Prevost, a quem ele devia “mil vezes mais do que a vida: a fé e o amor aos pobres”. Esgotado por ter passado doze semanas à cabeceira da querida enferma, ele é obrigado a abandonar o emprego de funcionário público e assim consegue uma modesta aposentadoria.

Retirados numa casa religiosa, no dia 1.° de março de 1846, os dois primeiros irmãos, isto é, Le Prevost e Myionnet, assumem um compromisso sério. Eis o texto assinado por Myionnet e conservado no arquivo da Congregação:

“Comprometo-me, diante de Deus, por um voto formal, a dedicar-me unicamente às obras de zelo e de caridade de acordo com o Sr. Le Prevost. Não poderei desobrigar-me daquela promessa sem o livre e inteiro consentimento do Sr. Le Prevost.

Paris, 1.° de março de 1846, 1.° domingo da Quaresma,

Clemente Myionnet”

A Congregação se firma

5. La communauté de VaugirardNo início do mês de Maria, o fundador vem residir com Myionnet, na comunidade da rua du Regard. Por sua vez, Maurício Maignen deixa sua família e o seu serviço no ministério da Guerra e decide ingressar na Congregação. Em setembro, encaminha-se a Chartres onde, na linda catedral, dirige a Nossa Senhora uma fervorosa oração. “Eu escutava”, diz ele, “a voz das multidões sofridas, abandonadas, gritando para que eu tivesse piedade delas e me dedicasse por elas… essas vozes desesperadas daquela pobre gente despojada dos seus direitos, do bem-estar, da fé que lhe assegurasse a felicidade…” Com o primeiro irmão, Maignen faz um retiro num antigo mosteiro e volta à Paris, rua du Regard.

Naquela noite, após uma jornada de intenso trabalho apostólico, Le Prevost, com uma imensa alegria na alma, escreve no seu diário: “3 de outubro de 1846, o irmão Maignen, a custo de grandes sacrifícios, se torna o terceiro membro da pequena comunidade”.

Desde a chegada de Myionnet, o patronato acolhe os aprendizes parisienses. Aos domingos, surge no pátio uma turma de rapazes turbulentos, cansados de trabalhar, ávidos de distrações e jogos.

Divertimentos, passeios, recreios, ginástica, avisos formam parte do programa. A missa do domingo e a bênção do Santíssimo também. Além disso, aos aprendizes, que por vezes passavam fome, era servido um almoço simples, mas farto. Eles se sentem em casa no patronato, amados e compreendidos. Entre eles foi fundada uma pequena Conferência vicentina e, antes da Páscoa, se pregou um retiro. Graças à biblioteca, à caixa de poupança, às palestras, aos concursos de trabalhos manuais, esses moços crescem intelectual e espiritualmente

 

A aparição de Nossa Senhora de La Salette

Notre Dame de la Salette

Le Prevost amava Nossa Senhora, a Virgem e a Mãe mais santa e mais perfeita. Quantas vezes ia rezar no santuário de Nossa Senhora das Vitórias, honrando o Coração misericordioso de Maria. ao qual contemplava como “escola e refúgio”.

Em 27 de julho de 1865, Pe. Le Prevost sobe como peregrino à montanha da Salete, nos Alpes, o lugar escolhido por Maria para manifestar-se a Melânia e Maximino. Na basílica, ele venera “a boa, terna e misericordiosa Mãe”, “a Mãe por excelência”, como escreve logo depois. No altar dedicado a Maria Reconciliadora, celebra duas vezes a Eucaristia e reza à vontade, pedindo para si e para os seus religiosos o espírito do Divino Senhor, o espírito de S. Vicente de Paulo. Na montanha, sente-se “feliz como a gente o é na casa paterna, onde tudo agrada mais que noutro lugar, porque a gente está aos pés de sua Mãe.

Le développement des oeuvres

Après le Patronage de la Rue du Regard, un deuxième patronage est fondé à Grenelle. Un an plus tard, la communauté obtient la permission de garder le Saint-Sacrement et de faire célébrer la messe dans la petite chapelle du patronage de Grenelle. En 1850, l’arrivée de l’abbé Henri Planchat va leur permettre d’accueillir des prêtres et des frères. La congrégation s’appelle y trouvera son charisme dans la collaboration entre le Frère et le Père.

La communauté va s’étendre et s’affermir. Le patronage de la rue du Regard déménage auprès de l’église Notre-Dame de Nazareth.  Il y a une centaine de jeunes ouvriers, deux cents apprentis et une cinquantaine de vieillards. Peu de temps après, un orphelinat est ouvert en proche banlieue avecla chapelle Notre-Dame-de-la-Salette. Vaugirard deviendra la “Maison d’oeuvres” dédiées aux pauvres, aux jeunes et aux ouvriers.4. Le Prevost photo groupe juin 1858

Os últimos anos

8. J-L. Prevost - 1862Chaville é um povoado tranqüilo a 13 quilômetros de Vaugirard. Na residência daquele lugar— uma mansão do século XVII que havia perdido o seu esplendor antigo —, vivem os noviços e alguns seminaristas. Ali se fazem os retiros e os capítulos da congregação. Esgotado pelos sofrimentos e privações de duas guerras consecutivas, Pe. Le Prevost escolhe como vigário geral Pe. de Varax, a quem confia o encargo de conduzir o Instituto. Então ele se retira a Chaville, vai para o meio dos jovens religiosos e aspirantes, exercendo ainda algum ministério: confissões e pregações. Todos os sábados. com chuva ou sol, toma o trem para Vaugirard e vai celebrar a missa em honra da Virgem Reconciliadora.

Na solidão de Chaville, o piedoso ancião recebe com bondade os seus filhos espirituais, estimula-os e lhes dá os últimos conselhos. Sobretudo multiplica as orações pelos irmãos e pelas obras que edificou. Convicto de que a oração é a mais grande força do mundo, a mais nobre e a mais alta das obras, toma a dizer: “Rezemos ardentemente e aqueceremos esses milhões de almas adormecidas na indiferença e totalmente absorvidas pelas preocupações terrenas”.

No entanto, o vigário geral, com o seu vigor juvenil, dá um novo impulso ao Instituto de São Vicente, reorganiza o noviciado e funda o Seminário das Missões Operárias para a formação dos jovens religiosos, incentiva o apostolado dos leigos. Sob sua inspiração, o Instituto participa dos congressos das Obras Operárias que, na época, coordenam a pastoral no meio popular. De sua parte, Maurício Maignen desenvolve sua atividade apostólica com a fundação dos Círculos Operários. Pe. Le Prevost sustenta o vigário geral e assiste regularmente aos conselhos de comunidade. Qual a de um avô, sua ação discreta consiste em “rezar por todos e trabalhar pela união cordial entre todos”.
Pe. Le Prevost tinha mandado um donativo a Maurício Maignen, para ele comprar uma âmbula em benefício da Associação dos Jovens Operários. Em compensação, Maignen queria que o nome do querido benfeitor fosse gravado na âmbula. Eis a cartinha que ele recebe naquela ocasião e que revela claramente o espírito do seu autor:

“Caríssimo filho,

Não tenho o direito de pôr o meu nome no pé da âmbula, embora fosse para mim uma honra ficar li como um cachorrinho aos pés de seu mestre: a minha oferta cobre apenas um terço da despesa. É mais conveniente eu ficar no banco dos pobres, isto é, na sombra. Este é o meu verdadeiro lugar.

Seu amigo e pai em Nosso Senhor,

Le Prevost.”

“Amo todas as almas”

Jean-Léon Le Prevost - assis 3Durante 1874, as forças do venerável ancião declinam rapidamente e os seus sofrimentos aumentam. Ele inicia um grande retiro espiritual no recolhimento contínuo, no silêncio, na oração, preparando-se para o encontro definitivo com o seu Senhor.

Na festa de São Vicente — 19 de julho — recebe a unção dos enfermos e a comunhão das mãos de seu vigário gerai. Emocionados, irmos e amigos o cercam com veneração.

A sua última carta à sua irmã e à sua sobrinha termina com estas palavras: “Não as esqueci, rezo por vocês. Espero que, por seu turno, no me esqueçam. Este é o remédio que me convém; quanto ao resto, entrego-me nas mãos de Deus!”

Os dias de sofrimento se prolongam até o fim de outubro. Na hora derradeira, o superior geral abençoa mais uma vez os seus religiosos e amigos. “Amo a todos os meus irmãos, diz ele, amo todas as almas”.

Depois de tomar o viático, ele declara: “Eis que acabo de receber a santa comunhão, e pela i1tima vez. Eis a imagem do Sagrado Coração.

Dou.lhe o meu coração. Parece que tudo está no fim, agora a minha alma deseja voltar para Deus”. Levantando os olhos ao céu, junta as mos numa oração silenciosa. O seu rosto se transforma, brilha com todo o ardor de sua piedade, toma uma expressão quase extática, reparada por várias testemunhas. Parece que enxerga algo lindíssimo.

As 14 horas aproximadamente, o servo de Deus e dos pobres entrega sua alma à misericórdia divina. É sexta-feira, 30 de outubro.

Menos de 24 horas depois do falecimento, o fiel companheiro da primeira hora, Myionnet, com os olhos cheios de lágrimas, escreve às suas sobrinhas estas linhas: “Quanto é doce, quanto é consolador, bonito e edificante assistir aos últimos momentos, à morte de um santo. Quão emocionante foi o seu adeus à comunidade, quão sublime, quando, levantando as mãos debilitadas, ele a abençoava pela última vez! Abençoou-me em particular, estendendo a mão sobre a minha cabeça e beijando a minha fronte, dizendo: ‘Adeus, meu velho amigo, meu primeiro companheiro, adeus, adeus’. Estes são momentos na vida que a gente não pode esquecer nunca”.

Já pouco antes da morte do fundador, o cardeal Guibert, arcebispo de Paris, dizia aos irmãos reunidos em Vaugirard: “O Sr. Le Prevost é um homem de Deus e a Igreja o colocará talvez nos altares”. Tantos outros reconheceram sua prudência, seu tato perfeito, sua bondade, seu zelo apostólico e sua piedade angélica ! Um dos seus colegas vicentinos resume sua vida em poucas palavras:

“Le Prevost era um verdadeiro Vicente de Paulo, de uma caridade ardente. de uma caridade ardente, de uma dedicação sem limites”.

Oração de intercessão para a beatificação

Senhor, que destes ao Venerável Jean-Léon Le Prevost um coração transbordante de zelo apostólico para aliviar as misérias do seu tempo e rico de paciência e de bondade para superar as dificuldades nas relações humanas.

Por sua intercessão, fazei-nos participar do Fogo da caridade que o Espírito Santo acendeu no seu coração, para que a Igreja continue a comunicar a ternura do Cristo às crianças, aos jovens, aos pobres, aos feridos pela vida e a todos aqueles que necessitam do seu amor.

Nós vo-lo pedimos por Jesus Cristo Nosso Senhor…

Amén

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